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Sentidos Sentinelas

Se só mais um pouco eu tivesse pra ver

Creio que, antes de tudo, abriria mão do verbo ter

Perceberia melhor, com mais cuidado, as pequenas coisas que me rodeiam

Consideraria o tom das cores, se é verde limão, rosa choque ou azul marinho

Com o tato, perceberia com afinco o formato do que mais uso, suas arestas, suas curvas, como é o plano

Analisaria, já com sentimento nostálgico, a carinha do gato quando ronrona, o olhar do bebê quando ri, o sorriso sábio do idoso quando aconselha

Dos meus pais eu decoraria cada traço, como uma foto que eterniza o momento: o jeito de andar, o semblante de satisfação ao fazer um bolo que gosto, o gesto calmo ao acarinhar o cachorro.

Se meu enxergar fosse se esvaindo, os outros sentidos virariam sentinelas, protegendo e impondo-se ao mundo novo

O tato, sempre ativo, aguçaria-se para sentir a trama até do mais leve tecido

O temperamental olfato desbancaria os experts de qualquer perfumaria francesa

A sensível audição traria tanto o incômodo quanto maravilharia ao farfalhar das folhas ali fora

O paladar, cada vez mais pantagruélico, tornaria-se chefe dos prazeres diários, atiçando-se com todos os elementos do lanche feito

Juntos, buscariam sanar a falta que a visão faria. Possivelmente chegariam perto, quem sabe um dia.

Se só mais um pouco eu tivesse pra ver

Experimentaria, agora com certo aspecto de verdade, o mundo como se fosse minha última fatia.

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