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Oitenta anos ou três dias

Algumas coisas, nós tomamos como certas.
Visão, audição, diploma, liberdade.
Além do certo, nós tememos como sempre.
Isolados, escurecidos, ensurdecidos.

Sei que amanhã verei.
Sei que amanhã ouvirei.
Sei que amanhã viverei.
Sei que amanhã repetirei.

Mas não vivi,
Não repeti,

Há tanto que me era certo, que não é.

Se não ouvisse?
Se não visse?

Há aquilo que repeti,
Há aquilo que vivi,
Há aquilo que ouvi,
Há aquilo que vi.

Algumas vezes, nos tomamos por imortais.
Deixamos, passamos, ignoramos, esquecemos.
A morte, nós esquecemos como sempre.
Ignorando, escurecendo, ensurdecendo.

Sei que amanhã verei?
Sei que amanhã ouvirei?
Sei que amanhã viverei?
Sei que amanhã repetirei?

Se não vivesse?
Se não repetisse?

Há tanto que valorizava, que não tem valor.

Não ouço?
Não vejo?

Tudo aquilo que esqueci,
Foi quando eu ignorei,
Mas aquilo que perdi…
Foi aí que eu lembrei.

As paredes ofuscam o pôr do sol.
Meus olhos se acostumaram a penumbra.

O concreto atenua o som da chuva.
Meus ouvidos se acostumaram ao silêncio.

Assim, lentamente.
Foi minha mente.
Memória, embora.

A tristeza não é não mais poder ver,
A tristeza é pensar em tudo que foi vivido.
Sem nunca ter visto,
Sem nunca ter ouvido.

A tristeza é ver o tempo passar,
Tendo passado tão pouco tempo,
Ao lado do velho amigo,
Na paz da solitude, comigo.

Mas se a tristeza é de um medo,
Da tristeza, do desperdício,
Desse tempo que é dado,
Então esgotado, escorrido.

Só pode ser ela vencida…
Em desistir do sorriso.

É o que é, nem tudo isso, nem só isso.
Nenhuma lágrima para o tempo.
Nem choro nem riso.

Três dias, se eu tivesse para ver, é fácil.
Pois há tão pouco nessas horas.
Mas tenho mais.
Não sei ao certo.
Dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, setenta, ou oitenta anos.

Depois disso, nunca mais verei.
Nunca mais escutarei.

Mesmo antes disso, lentamente, vou me apagando.
Memória, visão, audição.

Até que sobre só a casca, e um breve lampejo do passado.
De quando em vez,
Quando me recordarei,
Em nostalgia,
Das coisas que essa vida já viveu.

Nem lágrima nem riso,
Podem mudar isso.

Um dia pensei ter controle.
Mas ilusões são para serem destruídas.

Nem lágrima nem riso,
Podem mudar isso.

Nenhuma quantidade de poesia,
Nem de filosofia.

Nem lágrima nem riso,
Podem mudar isso.

Então não me torturarei,
Tentando forçar felicidade, pois…

Nem lágrima nem riso,
Podem mudar isso.

Três dias ou oitenta anos,
O que nos sobra é sempre um dia.

Nem lágrima nem riso,
Podem mudar isso.

A vida nasce na alvorada,
E se põe no crepúsculo.

Há um tempo eu desisti,
De tentar mudar isso.

Só então me tornei livre.
Do meu próprio abismo.

Nunca verei tudo que poderia,
Nunca ouvirei tudo que gostaria,
Nunca chegarei onde almejaria,
Nunca mais tentei parar o tempo…

Sejam oitenta anos ou três dias.

A beleza não está no que se olha.
Mas nos olhos que veem.

Tentar ver tudo que é belo,
É sofrer no relógio…
… e se torturar em arrependimento…
Pois curto é a ampulheta…

Sejam oitenta anos ou três dias.

Não é só isso, nem é tudo isso.
É isso…

Pois nem lágrimas nem riso…

É
isso
.

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